Quando soube que David Byrne iria trazer seu fórum “Cidades, Bicicletas e o Futuro da Mobilidade” a São Paulo no dia 12 de julho, fiquei aliviada de perder sua palestra na Flip no domingo, dia 10, em Parati. Tudo bem, perderia a pedalada com ele pela cidade (vejam cobertura de um biker aqui), mas fazer o quê? Eu tinha compromisso em São Paulo no fim de semana e tinha de voltar.
Ontem finalmente chegou o grande dia de vê-lo no fórum realizado no Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros. Não fui de bike, mas de metrô, utilizando pela primeira vez a nova Linha Amarela. Quinze minutos da estação Trianon-Masp até a Faria Lima. Bom, né?
A fala de Byrne foi boa, mas genérica e bem intuitiva. Falou de sua experiência pessoal como ciclista em diversas cidades do mundo e mostrou desenhos de urbanistas do início do século 20, com suas projeções para o que seria a cidade do futuro. Entre tantos projetos, um que chegou bem perto da atualidade foi o da General Motors, que privilegiava, obviamente, a mobilidade dos carros, e não a das pessoas: prédio altos, avenidas largas, pouco espaço para pedestres. Não é que a GM tenha sido visionária: o mundo é que entendeu que devia dar prioridade aos carros!
Mas, curiosamente, a fala de Byrne não foi “a melhor” da noite. Para o nosso bem – já que somos brasileiros e paulistanos –, os outros componentes da mesa trouxeram contribuições bem interessantes, preocupados com os problemas específicos da cidade de São Paulo: Arturo Alcorta, cicloativista que usa a bicicleta como meio de transporte há mais de 40 anos; Marcelo Branco, secretário municipal de transportes, presidente da CET e da SPTrans (não é muita coisa prum cara só, não?); e Eduardo Vasconcelos, sociólogo, engenheiro civil e conselheiro da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP).
Arturo citou exemplos internacionais, principalmente de Nova York; Marcelo falou das iniciativas da cidade de São Paulo, como a ciclofaixa (voltada apenas para passeio e aos fins de semana). Mas a contribuição que mais me tocou foi a de Eduardo, que também participou da mesa da Flip junto com David Byrne. Ele trouxe dados aterradores: 55% dos veículos motorizados de São Paulo são públicos e 45% são privados. Em termos de ocupação do espaço urbano, enquanto um pedestre ocupa em torno de 1 m2, um ciclista 2 m2 e um motociclista de 8 m2 a 10 m2, um carro ocupa 50 m2. E o ônibus? Apesar do tamanho, um cidadão que anda de ônibus ocupa o mesmo 1 m2 do pedestre.
Ele citou as principais propostas pensadas pela ANTP: reduzir a velocidade na cidade de São Paulo como um todo e tirar 30% dos carros para devolver o espaço público aos pedestres e ciclistas. Com essas medidas, conseguiríamos reduzir o número de acidentes, a poluição do ar e os congestionamentos.
O público que lotou o Teatro Paulo Autran (muitos deles ciclistas que foram de bike) levou para casa a mensagem de Arturo: não devemos ser bipolares e achar que os governantes são necessariamente nossos inimigos, ou que um meio de transporte tem mais relevância que outro. Devemos aprender a conviver pacificamente no trânsito!
Kiel Pimenta
Equipe do Véu